Quando saí da peça “O Mar”, do dramaturgo Federico Roca e dirigida por Fernando Nitsch, fiquei tomada por uma sensação difícil de nomear. Pensei em como a arte tem esse poder raro: o de mergulhar nas feridas do mundo abrindo espaços para debates complexos e cheios de camadas. Aquela história me recordou, com delicadeza e força, o poder da arte e das histórias.
A peça nos coloca diante do conflito entre Israel e Palestina através do olhar feminino. No palco, três personagens mulheres: duas palestinas e uma israelense que se encontram presas em uma casa, cercadas pela guerra.
E o que fazem 3 mulheres presas em uma casa, rodeada pela guerra, durante uma noite inteira?
Se conhecem. Se reconhecem. Contam histórias de vivos e mortos. Se cuidam, compartilham e se amam em suas infinitas diferenças, e mais ainda, em suas infinitas semelhanças.
-Federico Roca
Essa é uma das forças da arte: ela nos devolve a capacidade de ver o outro.
As personagens, interpretadas por Bete Dorgam, Laura La Padula e Yael Pecarovich, convidam o público a pensar sobre o quanto o ser humano tem dentro de si a força necessária para não sucumbir diante do ódio e da intolerância. É quase imperceptível, porque isso acontece no corpo, não apenas no pensamento.
Em determinado momento, me peguei desejando uma coisa improvável:
que aquela peça pudesse passar no Jornal Nacional. Porque, quando vemos o mesmo conflito pela televisão, o discurso é estatístico, frio, distante. A tragédia vira dado. A guerra vira número. Mas na arte, a guerra ganha nome, rosto, voz, fragilidade, sonho. A arte devolve a dignidade que a notícia, muitas vezes, não alcança.
É preciso sentir
No livro Diálogos Regenerativos para Futuros Sustentáveis, o cientista e autor Fabio Scarano descreve algo parecido com a sua experiência na exposição Symbiotic Seeing (2020), de Olafur Eliasson, em Zurique.
Ele conta que a mostra combinava notícias devastadoras sobre o estado do planeta com uma instalação imersiva: uma sala escura onde fumaça, luz e cor criavam a sensação de flutuar. Ora no mar, ora no céu. Na instalação não havia discurso científico, nem dados, nem instruções sobre o que fazer. Apenas experiência.
Scarano relata que ficou pouco tempo diante da parede repleta de informações alarmantes; mas, na sala de luz e fumaça, permaneceu por um longo período. “Estar imerso em uma experiência flutuante foi, e ainda é, para mim, mais real do que todos os dados sobre mudanças climáticas e insustentabilidade.” Ali ele sentiu (no corpo, e não na mente). Sentiu a vida. Sentiu a fragilidade. Sentiu a possibilidade.
Em vez de apenas informar sobre o colapso ecológico, o artista Olafur Eliasson faz o visitante sentir. Assim como O Mar, a exposição desloca o olhar: do dado para o vínculo; do debate para o afeto.
A arte, seja no palco, em uma instalação, música ou literatura, faz aquilo que o jornalismo, o relatório científico e a lógica não conseguem: cria uma ponte entre o saber e o sentir.

Contar histórias, compartilhar almas
Voltemos às minhas sensações ao assistir “O Mar”. Um dos momentos mais potentes da peça é quando uma das personagens diz:
“As mulheres do povoado trouxeram suas histórias para manter a minha neta viva.”
Senti essa fala como uma metalinguagem da própria peça que foi escrita a parir de uma notícia real. Federico transformou um fato jornalístico em narrativa viva. Da realidade dura, ele criou uma história que não apenas informa, mas toca, atravessa, humaniza.
Mais adiante, outra frase atravessa o silêncio do teatro:
“Quando conversamos, compartilhamos o coração.
Mas quando contamos histórias, nos damos a alma umas às outras, e nossas almas aprendem o que precisam saber... Conhece alguma história?”
Saí do teatro com essa pergunta acesa dentro de mim.
Agora, provoco você que me lê: quais histórias te atravessam e precisam ser contadas?
Nós, fazedores de teatro, somos apaixonados por histórias. A possibilidade de poder nos afastarmos um pouco de nós, de questionar nossas crenças através de outras verdades, já que são muitas, é um grande passo para entendermos a nossa desimportância.
Em tempos de protagonismo absoluto, de verdades inquestionáveis, de narrativas ensimesmadas, este presente de poder conduzir este processo com artistas incríveis, nos faz mais uma vez, entender e agradecer pela oportunidade de experienciar e de poder contar histórias - outras.
Fernando Nitsch e Tita Couto.
Toda vez que uma história é contada, o mundo se reorganiza um pouco.
E talvez seja isso que a arte nos peça agora: continuar criando, mesmo em meio às ruínas, como quem aprende, novamente, a chegar ao mar.
Nesta travessia #23, queremos abrir espaço para olhar para o poder da arte. Não como algo distante, reservado a lugares exclusivos, mas como força cotidiana de criação, cuidado e reexistência. Queremos investigar poder da arte em suas múltiplas potências:
Arte como transformação social
Arte como ferramenta para conhecer a si mesmo
Arte e criação de futuros
Arte e conexão com a natureza
Arte e espiritualidade
Arte e cuidado
Arte e decolonialidade
Arte como resistencia ao neoliberalismo
Nas próximas semanas, nossos colunistas trarão diferentes recortes e caminhos sobre a travessia “O poder da arte” . Também queremos saber suas impressões e conhecimentos sobre o assunto. Não deixe de comentar ou responder esse e-mail. E, claro, se ainda não recebe as news da Travessias Revista Digital, aproveite para se inscrever agora.
O mar
Espetáculo dirigido por Fernando Nitsch propõe reflexão sobre a paz e a possível união entre pessoas que vivem em lados opostos de uma guerra. Estrelado por Bete Dorgam, Laura La Padula e Yael Pecarovich, o espetáculo foi contemplado pela 19°edição do Prêmio Zé Renato de Teatro e cumriu temporada no primeiro semestre de 2025.
Para acompanhar futuros desdobramentos (e quem sabe apoiar o retorno da peça aos palcos) siga o Instagram: @o.mar.teatro.
Ficha técnica:
Texto: Federico Roca | Direção: Fernando Nitsch | Assistente de Direção: Tita Couto | Elenco: Bete Dorgam, Laura La Padula e Yael Pecarovich |Direção de movimento: Marina Caron | Cenografia: Marcio Macena |Figurinos: Daniel Infantini | Iluminação: Wagner Pinto | Direção musical e Trilha Original: Sonia Goussinsky | Fotos: Tita Couto Designer Gráfico: Yuri de Francco | Assessoria de Mídias Digitais: Barco Agência Digital | Assessoria de Imprensa: Pombo Correio | Produção Geral: Adryela Rodrigues | Sendero Cultural
Texto: Federico Roca | Tradução: Yael Pecarovich |Direção: Fernando Nitsch Assistente de Direção: Tita Couto | Elenco: Bete Dorgam, Laura La Padula e Yael Pecarovich | Direção de movimento: Marina Caron | Cenografia: Marcio Macena Assistente de cenografia: Morena Carvalho | Cenotécnico: Alexandre Rodrigues Pintura artística do cenário: Carol Carreiro e Marcio Macena | Figurinos: Daniel Infantini | Costureira: Neiva Varone | Iluminação: Wagner Pinto | Direção musical e Trilha Original: Sonia Goussinsky | Operação de som: Ivan Garro e Gylez Batista | Montagem e operação de luz: Vânia Jaconis e Gabriel Greghi |Fotos: Tita Couto | Vozes em off: Alexandre D’Antonio, Beatriz Melo, Daves Otani, Eleonor Pelliciari, Estela Gontow Goussinsky Flavio Tolezani, Lorenzo Saliba, Manoel Candeias, Monica Petrin e Roseli Papaiz | Direção de Produção: Gustavo Sanna | Produção Executiva: Fernanda Assef | Designer Gráfico: Carol Coelho | Assessoria de Imprensa: Pombo Correio | Mídias Digitais: Caró Comunicação Digital | Realização: Complementar Produções Artísticas
Lançamento
Diálogos Regenerativos para Futuros Sustentáveis- Integrando ciência, artes, espiritualidade e conhecimento ancestral para o bem-estar planetário
Este livro trata da sustentabilidade em seu sentido mais amplo, com profundidade e didática surpreendentes. O autor apresenta a lógica do desenvolvimento sustentável como a aposta da política, do mundo corporativo e de parte da ciência moderna para melhor lidar com os males da contemporaneidade. Entretanto, demonstra que a agenda oficial, representada pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, ainda é insuficiente para pavimentar futuros mais desejáveis para o planeta.
Com maestria e elegância, Fabio Scarano convida outras formas de interpretação da realidade para esta conversa: a arte, os conhecimentos ancestrais, a espiritualidade e outras cosmovisões não modernas. A natureza regenerativa deste diálogo revela a sustentabilidade como uma utopia pragmática.
Em novembro!
Oficina Criativa de Arteterapia: Visita ao Jardim Interior com Layla Stassun Antonio da Casa da Flor Dourada.
Uma vivência para quem quer:
uma experiência imaginativa e sensorial;
resgatar sentimentos e emoções e estruturar o ego
exercitar a intimidade com a natureza interior
germinar novas possibilidades existenciais
acolher e regenerar aspectos da alma







