Tem uma avó aqui na mata.
Sua pele bordada pelo tempo me diz que é uma sobrevivente.
Não faz muito que a encontrei. Foi Cirineu, homem nascido do mato, desses que amam a natureza com o corpo todo, quem me falou dela.
Um dia, fui trilhar o novo caminho que ele abriu. Subi alguns degraus e lá estava ela. Paineira.
Imensa. Silenciosa. Presente.
Tão imponente, tão grandiosa aos meus olhos, que imagino ter resistido a todo desmatamento do passado. A mata ao redor, a gente sabe, é secundária. Mas ela, não. Ela permanece. Ela resiste.
O que senti? Não sei dizer. Fiquei deslumbrado. Toquei sua casca enrugada, e me emocionei. Naquele instante, selamos um pacto. Sempre que posso, vou vê-la. Conversamos. Eu e a avó da Lua. Na língua da floresta. No sentir.
E o que sinto brota como olho d’agua. Nunca consigo me conter. Não sei se choro porque me sinto parte, e ela, aos poucos, me cura. Ou se choro por ela —que não pode chorar.
Seria eu o canal? O corpo que expressa o que ela sente? E por que ela chora? É… acho que essa resposta, no fundo, eu já sei. Mas ainda há ali, entre nós, um mistério. Algo que paira no ar, como um silêncio antigo que nunca se desfaz. Na dúvida, me deixo tocar. Absorvo tudo.
E ali, aos seus pés, prometo:
Tentarei ser o guardião deste lugar. Digo que ela — e todos os outros seres da floresta — são mais importantes do que qualquer outra coisa que se passe por aqui. Se eu tiver que escolher, escolherei ela.
E então eu saio.
Sempre transformado. Meio confuso, e ao mesmo tempo certo: ela me confia suas dores, seus segredos, e o seu mistério.









